DA REPORTAGEM LOCAL
08.03.2010
No centenário do Dia Internacional da Mulher a cidade de São Paulo teve seu centro histórico ocupado por mulheres que reivindicavam igualdade de direitos e a legalização do aborto.
Fotos Pedro Ekman
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Cristina Charão e Lia Segre – Observatório do Direito à Comunicação 03.03.2010 Dois atos simultâneos e antagônicos realizados em São Paulo neste 1º de março concretizaram o tamanho da disputa envolvendo a definição do direito à liberdade de expressão. A guerra conceitual ganhou as ruas, mais exatamente a Alameda Santos, nas imediações da Avenida Paulista. Na calçada, um grupo de 40 pessoas vestidos com roupas de palhaço e portando cartazes bem humorados lembrava, sob chuva constante, aos passantes que liberdade de expressão é “um direito de todos e todas” e que “mídia concentrada, liberdade aprisionada”. Era o Fórum de Rua Democracia e Liberdade de Expressão – Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais. “Somos várias entidades dos movimentos sociais organizados, estudantes, sindicalistas e aqui fazemos um fórum de rua gratuito para discutir a liberdade de expressão”, explicavam aos transeuntes militantes da Marcha Mundial das Mulheres, do PSOL, da CUT, da UNE/UEE, da Revista Viração, da Associação Vermelho e do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Dentro da sala de convenções do hotel, o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão reunia a nata do empresariado da comunicação nacional, convidados representando grandes grupos de mídia da América Latina e alguns intelectuais que ocupam os espaços de opinião dos veículos comerciais. Organizado pelo Instituto Millenium – que tem entre seus conselheiros João Roberto Marinho e Roberto Civita, além de representantes de grandes empresas de outros setores da economia –, o evento pretendia analisar o que seriam, na opinião dos convocantes, iminentes ameaças de restrição à liberdade de expressão no Brasil. A manifestação tragicômica que os militantes dos movimentos e organizações sociais protagonizavam na rua da chuvosa capital paulista deu continuidade à mobilização da sociedade civil por “uma mídia plural e de todos” após a I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), cuja etapa nacional ocorreu em dezembro. A Confecom aprovou uma série de resoluções acerca da promoção da diversidade na mídia e contra a concentração da propriedade dos meios de comunicação. Do lado de dentro, a maioria das empresas ali representadas fazia parte do grupo que abandonou o processo de construção da Confecom. A recusa em participar do debate público sobre os rumos da comunicação foi definida por um dos participantes do evento, o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Abril, Sidnei Basile, como uma estratégia vitoriosa. A vitória, segundo ele, foi que “uma parte do conto do vigário [da Confecom] não se estabeleceu”. A conferência envolveu mais de 20 mil pessoas em todo o país e aprovou cerca de 500 resoluções entre 6 mil propostas apresentadas nas etapas estaduais. Para Basile, o fato de se ter colocado como pauta central o controle social da mídia seria, em si, um ataque à liberdade de expressão que não foi tolerado pelos empresários de comunicação. O diretor da Abril esqueceu-se de dizer que duas entidades empresarias permaneceram na organização da Confecom – a Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra) e a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil). E que o tema, em si, não foi incluído como eixo temático da conferência, tendo sido introduzido nas resoluções por força da participação da sociedade civil não-empresarial.
Controle social Reiteradas vezes, o tema do controle social foi citado durante o evento do Instituto Millenium. Ora, o problema era o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encampar estas idéias, como teria acontecido na convocação da Confecom. Este temor foi aplacado pela declaração do ministro das Comunicações, Hélio Costa, convidado para a abertura do fórum. Segundo ele, muito democraticamente, “em nenhum momento isso foi discutido [pelo governo], é discutido ou será permitido discutir”. As afirmações do ministro foram bem recebidas, mas quase ao final do evento o publisher do Grupo Folha, Otávio Frias Filho, colocou novamente o governo Lula na berlinda. “Julgo que os arranques antidemocráticos do governo [Lula] se devem a esta confiança na sua alta aprovação”, afirmou. Em dado momento, mais exatamente durante a palestra do sociólogo Demétrio Magnoli, a grande ameaça passava a ser a eleição da candidata do presidente Lula, Dilma Roussef. Para Magnoli, nesta situação, as teses “stalinistas” do PT para a área da comunicação encontrariam caminho livre para se estabelecer como políticas de governo. O “PT stalinista”, segundo Magnoli, é o que defende o controle social da mídia nos seus documentos oficiais e que apóia o fechamento da RCTV, emissora venezuelana que teve sua concessão suspensa pelo governo daquele país por descumprir a legislação e ter apoiado um golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez. Na mesma mesa, o filósofo Dênis Rosenfield apontava como perigo os processos participativos de construção de políticas públicas, como a Confecom e o Programa Nacional de Direitos Humanos, resultado também de conferência nacional temática. Segundo ele, as conferências são espaços para os sindicatos e movimentos sociais apresentarem de “forma palatável” o “controle popular ou como queiram chamar”, quando na verdade estes movimentos “querem é cercear os meios e a liberdade de expressão”. Rosenfield ou qualquer outro palestrante não conseguiram ser explícitos em relação às razões pelas quais estes movimentos gostariam de “cercear” as mídias comerciais. No Fórum de Rua, algumas razões para o exercício do controle social da mídia estavam explícitas. As mulheres, por exemplo, marcaram presença com suas reivindicações específicas e lembraram como a mídia retrata apenas um estereótipo feminino. “Nós mulheres sabemos há muito tempo como a mídia mostra uma única imagem da mulher: magra, loira, alta, esbelta”, diz Teresinha Vicente, da Articulação Mulher e Mídia. O jovem estudante Leonardo Carvalho, membro do grêmio estudantil da Escola da Vila, fez uma análise mais ampla: “Os meios de comunicação são centrais na luta pela democracia. Quando você monopoliza os meios, você monopoliza também o poder sobre mentes e constrói o que as pessoas acham.”
Estado e participação “Diante de uma realidade como esta, fica evidente a necessidade de o Estado agir de forma proativa para reverter este quadro de concentração e de falta de diversidade”, comentou Pedro Ekman, do Intervozes. Ele ressalta que esta presença do Estado defendida “por quem não é dono da mídia” nada tem a ver com censura. Ao contrário, é esperado que o Estado atue para garantir direitos a todos, não apenas “acomodar as vontades dos mercados”. “Liberdade de expressão com garantia de direitos é o que estamos pedindo”, disse Ekman. “Se antes no Brasil era uma junta militar – ditadura clássica – que definia o que podia e o que não podia se expressar, hoje é uma elite de poucas famílias que o faz. E esta é a ditadura que vivemos hoje na área da comunicação. Ou seja: é preciso existir mecanismos que impeçam que a vontade unilateral de um grupo econômico estabeleça como serão distribuídos os meios de comunicação ou que tipo de conteúdos serão oferecidos à população”, afirmou Ekman. O participante do Fórum de Rua disse que tais mecanismos seriam justamente aqueles que abrem a definição das políticas públicas à participação da sociedade, de forma ampla e democrática. Ironicamente, Ekman lembra que estes instrumentos participativos serviriam também para afastar um dos medos apontados pelos participantes do fórum do Instituto Millenium, de que o governo assuma um caráter autoritário.
Os participantes do fórum do Instituto Millenium discordam. Como já vem sendo feito através de matérias em seus vários veículos, os representantes da mídia tradicional atacaram os mecanismos de democracia participativa. Carlos Alberto Di Franco, colunista e consultor de O Estado de S. Paulo, colocou mecanismos como consultas públicas e conferências como sintomas da instauração de um populismo autoritário. William Waack, apresentador da TV Globo e um dos mediadores das palestras, tentou desqualificar os participantes destes processos. “Para mim, são ONGs de fachada”, disse, querendo afirmar que as organizações seriam os braços dos partidos políticos, especialmente o PT. No ideário do fórum empresarial, tampouco o Estado pode ser garantidor, ele próprio, da diversidade na mídia ou um regulador operando pelo equilíbrio de direitos. O diretor da Central Globo de Comunicação Luís Erlanger, fazendo uma pergunta aos palestrantes da mesa que mediava, ironizou as tentativas de restringir a publicidade de bebidas alcoólicas, alimentos ricos em açúcar e gordura e de produtos para crianças. “É muita paranóia pensar que que a tentativa de diminuir o faturamento das empresas tem também por trás uma tentativa de cercear a imprensa?” A paranóia vale também em relação ao Estado produzindo conteúdo. O deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), ex-ministro das Comunicações, acha que “há muita mídia governamental”. “É TV Senado, TV Câmara, TV do governo federal, estadual, municipal, Voz do Brasil…”, enumerou Teixeira, para concluir que tudo isso já seria instrumento suficiente de controle sobre a mídia. Já Di Franco, do Estadão, citou resolução contida no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos que prevê que o governo produza vídeos e filmes que reconstruam o período da ditadura militar para fins educacionais. Segundo o jornalista e um dos mentores da linha editorial do jornal paulista, o Estado não pode ter esta prerrogativa porque resultaria em uma leitura enviesada da história. A solução para os eventuais problemas causados pela atuação da mídia, segundo os palestrantes convidados do Millenium, são o exato oposto da participação social defendida pelos participantes do Fórum de Rua. A defesa das leis de mercado e a autorregulação como padronizadores da atuação da mídia foi constante. A autorregulação recebeu, inclusive, o apoio do ministro das Comunicações, Hélio Costa, e do deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP), para quem os “sistemas de autocontrole” e os “códigos de conduta das próprias empresas” já agem com suficiente eficiência para evitar abusos.
Ofensivas O entendimento de vários palestrantes é que justamente este ideário que associa liberdade de expressão às liberdades de mercado está em jogo. Cumprindo papel de organizadores e promotores do discurso do setor empresarial, os colunistas Arnaldo Jabor (Globo) e Reinaldo Azevedo (Veja) pregaram uma ofensiva da mídia tradicional. Jabor tratou a imprensa como sinônimo de sociedade – “é uma tradição [do Brasil] de que o Estado controle a sociedade e não que a sociedade, a imprensa é que controla o Estado” – e convocou esta a tomar “uma atitude ofensiva” contra um “populismo controlador” que pode se instalar no país, a exemplo do que já ocorre na América Latina. Azevedo, que se apresenta como porta-voz de uma ultra-direita brasileira que tem vergonha de aparecer, foi mais explícito em relação aos valores a serem defendidos pela grande mídia: “Está na hora de a imprensa defender os valores da democracia, da economia de mercado, do individualismo, da livre iniciativa e da propriedade e deixar de lado aqueles que tentam solapar estes valores.” O Fórum de Rua afirmou, em sentido oposto, que mercado e diversidade não dialogam. “Democracia e liberdade de expressão é desconcentração da mídia, é possibilidade de todo mundo poder falar, e não os que sempre foram privilegiados politicamente e economicamente no Brasil”, afirmou Pedro Ekman, do Intervozes, resumindo a idéia de liberdade de expressão que permeou o ato na Alameda Santos. José Arbex Jr. 03.03.2010 “Novela das oito” da Rede Globo (“Viver a vida”): a cena se passa na Jordânia. É uma conversa entre duas moças que, no enredo, são modelos profissionais. Uma das personagens diz que vai sair para passear. A outra alerta, com evidente preocupação, sobre os perigos de uma caminhada solitária no local em que se encontram. Mas é imediatamente tranquilizada pela primeira personagem, que pondera: a Jordânia “é o país mais ocidentalizado da região.” Logo, sair por aí, à noite, não oferece tanto risco assim. Provavelmente a coisa seria bem diferente se a Jordânia fosse, digamos, um pouco menos “ocidental”, ou, o que dá no mesmo, um pouco mais “árabe”. Já imaginaram o perigo? O diálogo provocou uma troca de e-mails entre a diretoria do Instituto de Cultura Árabe (ICArabe) e os responsáveis pelo setor de teledramaturgia da Rede Globo. Reproduzimos, abaixo, alguns trechos dessa troca, por ilustrar, de modo bastante didático e autoexplicativo, a maneira pela qual os “donos da mídia” encaram o exercício da liberdade de expressão e sua responsabilidade específica como divulgadores de informação, arte e cultura.
A primeira mensagem foi enviada pela diretoria do ICArabe em 13 de novembro de 2009: “(…) Estranhamos muito o fato de que num dos capítulos recentes da “novela das oito”, um diálogo entre duas personagens que estão na Jordânia tenha dado vazão a um comentário extremamente preconceituoso, injusto e até mesmo racista sobre as sociedades “não ocidentais” em geral e sobre as sociedades árabes em particular. No referido diálogo, uma das personagens diz que vai sair para passear. A outra alerta, com evidente preocupação, sobre os perigos de uma caminhada solitária no local em que se encontram, para ser imediatamente tranquilizada pela primeira personagem, já que, segundo ela, a Jordânia “é o país mais ocidentalizado da região.” O que, exatamente, querem os autores do roteiro dizer com uma afirmação tão estúpida, estapafúrdia e carente de qualquer sentido? Será necessário lembrar que em nosso país – até onde sabe, situado no “ocidente” – o índice anual de mortes violentas atinge, em média, a cifra de 40 mil ao ano, considerada pela ONU uma das mais elevadas do planeta? Será necessário recordar que as maiores atrocidades já cometidas na história da humanidade – incluindo, entre muitos outros, o holocausto nazista e a bomba de Hiroshima – foram perpetrados por países “ocidentais”, e que nenhuma nação árabe ou “oriental” cometeu crime algum sequer comparável a tamanhas façanhas? Aliás, como, exatamente, os senhores roteiristas definiriam o que é ser “ocidental” e o que é ser “oriental”? Lamento informar aos senhores roteiristas que o Deus “ocidental” nasceu no “oriente” (chame-se ele Jeová, Deus ou Alá), assim como o alfabeto, os algarismos e até mesmo o álcool com que, eventualmente, os senhores roteiristas abastecem os respectivos automóveis (ou encharcam o cérebro, antes de escrever tamanhas idiotices). Será necessário informar aos senhores roteiristas que se existe alguma tradição permanente, duradoura e respeitada entre os povos árabes é a da hospitalidade, e que uma das faltas punidas com maior rigor é a agressão por motivos fúteis ou mundanos contra qualquer pessoa?”
No dia 30 de novembro, o Icarabe recebeu a seguinte resposta da Rede Globo: “Nossas novelas pertencem ao gênero ficção, sem terem necessariamente nenhum vínculo com a realidade. São fundamentadas na liberdade de expressão e criação artística, amplamente amparada na nossa Constituição. Dos personagem que lá – somente no universo fantasioso – “vivem” não se pode exigir padrão de comportamento algum, retidão de caráter, equilíbrio, fraternidade, respeito à diversidade – valores tão em falta no cotidiano real, aí sim razão de lamento. Assim como de Shakespeare a Carlitos, uma novela não tem compromisso com o chamado “politicamente correto”. Embora, naturalmente, a maioria absoluta delas tenha um final considerado moralista. Preocupa-nos muito uma tendência de querer-se resolver os problemas da realidade usando como plataforma o mundo do irreal. A teledramaturgia está na categoria entretenimento. Mais do que, no campo do imaginário, como no caso, reproduzam preconceitos e clichês – inevitavelmente levando a uma positiva discussão pública –, indesejável é tentar transformar uma obra cultural em defesa de teses. (…) Dentro dessa lógica, é importante ainda ressaltar que nossos folhetins apenas lançam temas para a reflexão das pessoas e não se propõem a influenciar comportamentos. Aliás, felizmente, essa influência não existe. As pesquisas indicam que, assim como têm capacidade de discernimento a cada dois anos na urna eleitoral eletrônica, o telespectador-cidadão sabe distinguir claramente entre o que é novela ou realidade e se comporta de acordo com seus valores. É a capacidade de livre-arbítrio que, se for desqualificada, atinge, mais do que um veículo de comunicação de massa, a democracia – que se baseia na capacidade de escolha das pessoas.”
Imediatamente, o ICArabe ofereceu a seguinte tréplica: 1.Fosse assim tão evidente a separação entre os vários gêneros apresentados pelos veículos de comunicação (isto é: telejornalismo, telenovela, programas de auditório, publicidade e propaganda etc.), jamais aconteceria um fenômeno como a propaganda nazista chefiada por Joseph Goebbels. (…) 2.Os senhores aceitariam um enredo que mostrasse, por exemplo, o papa católico mantendo relações homossexuais? Já que aquilo que pertence ao reino da ficção, segundo os senhores, não pode ser criticado, supomos que tal enredo passaria sem problema, certo? Ou, que tal, um enredo em que Adolf Hitler fosse mostrado como um sujeito equilibrado, sensato e razoável? Passaria pelo vosso crivo? Os senhores estão conscientes de que durante a transmissão da telenovela O Rei do Gado havia uma orientação expressa, por parte da direção da Rede Globo, no sentido de que jamais fosse mostrada uma bandeira do MST? Qual a razão? Segundo a lógica dos senhores, nenhuma! 3.Os senhores, certamente, sabem mais do que aquilo que pretendem mostrar em vossa resposta. Os senhores jogam com uma oposição absolutamente idiota, superada e maniqueísta entre “realidade” e “ficção”. Se os senhores realmente acreditam naquilo que escreveram, não podem ocupar cargos de responsabilidade em uma emissora do porte da Rede Globo. Vosso raciocínio primário, sofístico e elementar jamais conseguiria explicar como um show radiofônico de ficção – que, aliás, advertiu os seus ouvintes de que tudo o que seria narrado em seguida seria pura ficção, baseada em livro de H. G. Wells – conseguiu produzir pânico em 15 milhões de cidadãos estadunidenses, em 1938. Caso os senhores não saibam, estamos nos referindo, aqui, à célebre transmissão de Orson Welles pela rede CBS. 4.Tampouco os senhores podem explicar que, no caso de disputas eleitorais, cada vez mais vale a imagem projetada do candidato (isto é: pura ficção), muito mais do que seu programa político. Se os senhores não sabem que a performance, em nosso mundo, é tudo, e que a forma exerce predomínio absoluto sobre o conteúdo, então, mais uma vez, os senhores estão desqualificados para a função que exercem. 5.Finalmente: não há justificativa palatável, possível ou aceitável para atos de preconceito, segregação, racismo, discriminação cultural. Os senhores promoveram tudo isso com aquele simples e estúpido diálogo. Reiteramos o pedido de retratação, para evitar a adoção de medidas normativas junto à Justiça brasileira. ”
E a resposta final da Rede Globo, datada de 4 de dezembro: “A escolha diária, a cada momento, do telespectador é um exercício de democracia, baseado na crença na capacidade de discernimento e no livre-arbítrio do cidadão. Ameaçar a liberdade de expressão em nome de um comportamento que alguém considera politicamente correto na ficção é uma ameaça à democracia. É ainda estranho verificar que segmentos que são vítimas de preconceito de certa forma realimentam esse sentimento ao fazerem o mesmo juízo de valor de quem descrimina. É exatamente essa leitura que fazemos sobre a expressão “ocidentalização”, reconhecendo nela ela um caráter positivo que não é inerente a ela. Neste aspecto, gostaríamos de nos despedir com a Constituição brasileira, nossa lei maior, que deve ser seguida por todos que moram no Brasil, independente de origem, credo, etnia ou gênero: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Nota-se, facilmente, que a Rede Globo não respondeu a qualquer dos argumentos esgrimidos pelo Icarabe. E mais: de forma cínica, inicia sua última resposta atribuindo ao telespectador uma suposta capacidade absoluta que escolher aquilo que quer ver, como se não houvesse monopólio dos meios de comunicação, e como se não existisse – pelo menos, desde Goebbels – uma “engenheira psicossocial” capaz de condicionar escolhas e estabelecer parâmetros de comportamento. Em outros termos, para explicar o inexplicável e justificar o injustificável, os porta-vozes da Rede Globo são obrigado a assumir um discurso idiota e imaginar que os seus interlocutores sejam igualmente incapacitados do ponto de vista intelectual. José Arbex Jr. é jornalista e diretor de Relações Nacionais e Internacionais do ICArabe. Da reportagem LOCAL 02.03.2010 Diversas entidades do movimento de comunicação se reuniram no primeiro dia de março em frente ao Hotel Golden Tulip em São Paulo no primeiro Fórum de Rua pela Democracia e Liberdade de Expressão Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais. Os manifestantes protestavam contra o seminário do Instituto Millenium que reuniu o oligopólio midiático para definir a pauta e o tom da campanha direitista para o próximo período. Além das personalidades tradicionais da direita midiática como João Roberto Marinho, Roberto Civita, Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo, também foram ouvidos no seminário o deputado petista Antonio Palocci e o Ministro Hélio Costa. Durante a pausa para o almoço, os manifestantes distribuíram notas de R$ 500,00 aos participantes do seminário alegando que se tratava de reembolso para os que pagaram a mesma quantia para poder participar do evento no hotel. Fotos Pedro Ekman Rádio comunitária Negro Primeiro em Caracas – Foto Pedro Ekman
Mário Augusto Jakobskind * 23.02.10
Adital - A República Bolivariana da Venezuela segue na ordem do dia da mídia. Quem acompanha o noticiário diário das TVs brasileiras e alguns dos jornalões tem a impressão que o país está à beira do caos e por lá vigora a mais ferrenha obstrução aos órgãos de imprensa privados. Mas há quem não tenha essa leitura sobre o país vizinho, que no próximo mês de setembro elegerá os integrantes da Assembléia Nacional. José Gregorio Nieves, secretário da organização não-governamental Jornalistas pela Verdade, informou recentemente a representantes da União Européia que circularam em Caracas que nos últimos 11 anos, correspondente exatamente à ascensão do presidente Hugo Chávez, houve um avanço na democratização da comunicação na Venezuela. Ele baseia as suas informações em números. Segundo Nieves, há atualmente um total de 282 meios alternativos de rádios e televisões onde a população que não tinha voz agora tem. Houve, inclusive, um aumento da democratização do acesso aos meios de comunicação. Até 1998, ou seja, no período em que a Venezuela era governada em revezamento, ora pela Ação Democrática (linha social-democrata), ora pela Copei (linha social cristã), não havia permissão para o funcionamento de veículos comunitários. No país existiam apenas 33 radiodifusores privados e 11 públicos, todos eles avaliados pela Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel).
Que seja ouvido o outro lado Hoje, ainda segundo informação prestada por Nieves a representantes da UE, as concessões privadas em FM chegam a 471 emissoras, sendo 245 comunitárias e 82 de caráter público. Na área da televisão, o total de canais abertos privados até 1998 era de 31 particulares e oito públicos. Atualmente, a Conatel concedeu concessões a 65 canais privados, 37 comunitários e 12 públicos. A lógica desses números contradiz, na prática, a campanha midiática de denúncia de falta de liberdade de imprensa. Seria pouco lógico que num período em que aumentaram as concessão de rádio e TV para a área privada o governo restringisse os passos das referidas empresas. O secretário de organização dos Jornalistas pela Verdade informou ainda que a Lei de Responsabilidade Social no Rádio e Televisão permitiu o fortalecimento dos produtores nacionais independentes. Nieves fez questão de assinalar que a ONG que ele representa rejeita a manipulação contra o governo bolivariano que ocorre em âmbito da UE e em outros fóruns. É importante que os leitores e telespectadores brasileiros tenham acesso a outros canais de informação e não aos de sempre, apresentados diariamente pelos grandes meios de comunicação vinculados à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Em outros termos: que seja ouvido o outro lado, para que não prevaleça, como tem acontecido, o esquema do pensamento único.
RCTV é confirmada como produtora nacional Para se ter uma idéia de como funciona o mecanismo do pensamento único, no próximo dia 1º de março, em São Paulo, o Instituto Millenium estará promovendo um seminário sobre “Liberdade de Expressão” que contará com a participação, entre outros, do presidente da RCTV venezuelana, Marcel Garnier, do colunista das Organizações Globo Arnaldo Jabor, do sociólogo Demetrio Magnoli, do jornalista Reinaldo Azevedo, da Veja, e de Carlos Alberto Di Franco, membro da seita Opus Dei. O Instituto Millenium é dirigido, segundo informa o jornal Brasil de Fato, por Patrícia Carlos de Andrade, ex-mulher do ex-diretor do Banco Central no período FHC, Armínio Fraga, e filha do falecido jornalista Evandro Carlos de Andrade, que a partir de 1995 coordenou a Central Globo de Jornalismo. Os mediadores do seminário serão três profissionais de imprensa das Organizações Globo: o diretor Luís Erlanger, o repórter Tonico Pereira e o âncora William Waack. Já se pode imaginar o tipo de crítica ao governo venezuelano que vem por aí. Vão lamentar a suspensão de seis emissoras de TV a cabo, mas provavelmente deixarão de mencionar, como tem feito a mídia conservadora, que cinco desses canais já retornaram ao ar porque deram as informações necessárias solicitadas pela Conatel. Quanto à RCTV, que se julga internacional, a Conatel confirmou a classificação do canal de TV a cabo como produtora nacional, o que conseqüentemente a obriga a acatar as leis do país. Se fizer isso, poderá voltar ao ar. Se não o fizer, Marcel Garnier continuará circulando por países da América Latina para denunciar a “falta de liberdade de imprensa no país de Chávez”.
Sem contraponto Ah, sim: nestes dias, o governo do Uruguai, cujo presidente, Tabaré Vázquez, encerra o mandato na mesma data do seminário promovido pelo Instituto Millenium, anunciou que vai punir dezenas de emissoras de rádio que se recusaram a entrar na cadeia nacional obrigatória em que o chefe do Executivo uruguaio informava a população sobre questões relacionadas aos direitos humanos. Os jornalões e as TVs brasileiros não deram uma linha sobre o fato, ao contrário do que aconteceu quando a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) da Venezuela decidiu suspender emissoras de rádio que estavam em situação irregular. Por estas e muitas outras é que os leitores e telespectadores brasileiros e da América Latina de um modo geral recebem informações sobre a Venezuela apenas com base do que dizem os inimigos da Revolução Bolivariana. Não há contraponto. [Publicado no Observatório da Imprensa] * Jornalista |
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